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2 de janeiro de 2009

A memória depois dos 50.




O que é a memória e quais são suas principais funções?


A memória é uma das funções mentais mais complexas e está presente a todo o momento em nossas vidas. Hábitos, como dirigir, andar de bicicleta, escovar os dentes, sentar à mesa de um restaurante dependem da nossa memória sem que percebamos. Da mesma forma, a capacidade de apreciar um bom vinho e uma boa comida. A consciência de quem somos, qual nosso papel e desafios pessoais, nosso passado, as pessoas amigas e familiares, as saudades, as lembranças dos lugares que já visitamos, enfim, o sentido da nossa existência depende da memória. Os símbolos, os números e as letras não fariam o menor sentido, se não os tivéssemos aprendido e incorporado para sempre em nossa memória. Com essa diversidade, nossa memória precisa de todo o cérebro funcionando em harmonia, para que ela se dê plenamente e sem falhas. Mas é a memória cotidiana, àquela a quem recorremos para lembrar os eventos que se passaram e os compromissos que temos por vir, que é a mais sentida por nós. E é ela que muitas vezes nos deixa no vazio, ou melhor, no esquecimento.



Depois dos 50 anos, quais as principais doenças que acometem a memória?


São várias as doenças que podem acometer nossa memória. A depressão é a causa mais comum após os 50 anos e, me arriscaria a afirmar, que também antes dos cinqüenta. Ela tira a capacidade de concentração, tão necessária para que possamos aprender e guardar novas informações. Isso também pode ocorrer nos quadros de estresse e sobrecarga emocional. Carências vitamínicas, desnutrição e doenças metabólicas, como hipotireoidismo, também podem afetar a memória.
Doenças neurológicas, como a Doença de Alzheimer, doenças cérebro-vasculares (como o AVC e a ateroesclerose), Doença de Parkinson e outras formas de demência aceleram o envelhecimento do cérebro e produzem esquecimento, dentre outros sintomas neurológicos e psiquiátricos. A Doença de Alzheimer é a maior causa de demência após os 60 anos de idade, seguida de perto pelas doenças cérebro-vasculares. Identificá-las precocemente é crucial para prevenir seu avanço, bem como para retardar o esquecimento e a deterioração das demais funções psíquicas.



Existe alguma maneira de prevenir essas doenças e, assim, preservar a memória?


Sim. Hábitos saudáveis de vida são fundamentais. Estudos têm demonstrado que atividades físicas rotineiras podem retardar o envelhecimento cerebral. A alimentação também influi, evitando-se gorduras, carboidratos e açúcares, e comendo mais verduras e hortaliças. Alimentos que contenham beta-caroteno (abóbora, batata-doce, agrião, bertalha, espinafre, couve-flor), vitamina C (acerola, abacaxi, laranja, limão, goiaba, brócolis, repolho) e vitamina E (cereais integrais, hortaliças, óleos de sementes) são muito bons, pois possuem ação antioxidante e ajudam o cérebro a se livrar dos radicais livres, tão danosos. Isso pra não falar em parar de fumar e consumir bebidas alcoólicas moderadamente. Tanto o cigarro como o álcool são fatores de risco para doenças cérebro-vasculares. Aqueles que possuem doenças crônicas, como diabetes e hipertensão arterial, devem manter o tratamento e o controle rigoroso, evitando que essas doenças agridam o cérebro. Evitar o estresse e ter bom hábito de sono também ajudam.



Por que a perda de memória é mais comum na terceira idade?


Porque à medida que o cérebro envelhece e sofre as agressões do ambiente, a memória dá sinais de enfraquecimento. Mas é importante frisar que envelhecer não é sinônimo de ficar esquecido. O desempenho cognitivo, assim como a memória, diminui um pouco com a idade, é verdade. Os movimentos e os reflexos, antes rápidos, tornam-se mais lentos, a atenção, um pouco mais dispersa, o raciocínio pode ficar mais vagaroso, algumas falhas de memória podem acontecer. Porém, o esquecimento, se patológico, deve sempre ser investigado. Como após os 60 anos há um aumento na incidência das doenças degenerativas, devemos estar sempre atentos para um esquecimento que pode revelar uma doença e não ser natural da idade.



Como prevenir o envelhecimento do cérebro?


É importante manter o cérebro em funcionamento. Estamos falando de uma época em que muitos se aposentam, passam mais tempo em casa, muitas vezes se deixando absorver pela rotina do lar e da família. Muitas pessoas que antes tinham uma atividade cognitiva intensa vêem a demanda cognitiva reduzir drasticamente. É fundamental cultivar hábitos de leitura, fazer palavras cruzadas, manter vida social ativa e sentir-se produtivo.



Terapias alternativas como, artesanato, aulas de dança, jardinagem, são indicadas para preservar a memória?


Todas as atividades que aumentem a interação social, estimulem o interesse e mantenham a pessoa mais produtiva são bem vindas. Porém, para a memória, em especial, é importante que a atividade envolva algum grau de dificuldade cognitiva, ou seja, que estimule o raciocínio, a atenção e a memória. A leitura diária é um bom exemplo. Um exercício simples, como ler e depois tentar se lembrar do que leu e um jogo da memória estimulam muito essa função. Escrever também é bom, p.ex. fazer um diário, com o que fez ao longo do dia, mantém a pessoa antenada, a par do dia e dos eventos que aconteceram.



De que maneira o estilo de vida influencia na memória?


Influencia de duas maneiras. Têm atividades que podemos fazer para diminuir as agressões aos neurônios: são medidas de proteção. Cuidar da saúde física, de doenças crônicas, da dieta, reduzir o consumo de alimentos e substâncias nocivas diminuem os insultos ao cérebro, evitando a formação de radicais livres e substâncias tóxicas, que agridem e matam mais neurônios. A outra maneira é realizando atividades de estímulo, que irão reforçar circuitos cerebrais importantes, como o da memória. Por isso a leitura, exercícios cognitivos, atividades que estimulem a interação social e o bem estar. Nosso cérebro é dotado de plasticidade, ou seja, ele pode se reconfigurar a partir de estímulos do ambiente, fazendo novas conexões entre os neurônios e reforçando determinada função que está sofrendo. Esta plasticidade pode ocorrer para o bem ou para o mal, depende apenas do que oferecemos ao nosso cérebro. Mesmo na terceira idade, o cérebro não perde sua plasticidade e isso nos dá esperança de mudar sempre.



Existe alguma estatística da ocorrência de doenças degenerativas cerebrais?

Sim. No caso da doença de Alzheimer, causa mais comum de demência, as taxas de incidência e prevalência variam de acordo com a faixa-etária. Ela é rara antes dos 60 anos, porém aos 60 já é cerca de 10% da população daquela idade. Esta taxa dobra a cada 5 anos, chegando a 50% entre as pessoas que têm 95 anos. O aumento geométrico na incidência da doença deve-se ao fato do envelhecimento cerebral ser o maior fator de risco para a doença. Aos 85 anos, p.ex., a chance de a pessoa ter a doença de Alzheimer é nove vezes maior do que quando ela tinha 69 anos.

7 comentários:

luciene disse...

Boa noite!
Gostei muito do blog. Você poderia divulgá-lo mais. Adorei as postagens que ele contém! Parabéns!!!

Anônimo disse...

O risco de um portador de esquizofrenia ter alzheimer é muito baixo, porque ele tem alto nivel da enzima fosfolipase A2, e quem tem alzheimer tem essa enzima baixa. Dr. Leonardo, o sr concorda?

Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira disse...

Sim, esta é uma hipótese, mas ainda não é conclusiva. Mesmo porque a hipótese da fosofolipase na esquizofrenia precisa ser melhor investigada. Tem um estudo da equipe do psiquiatra Wagner Gattaz da USP sobre o tema. Sugiro que leia o artigo da FAPESP publicado on line em
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=1666&bd=1&pg=1&lg=

Um abraço!

Anônimo disse...

Olá doutor Palmeira,

já conversamos, outrora, através de seu blog sobre outros assuntos relacionados às doenças mentais. Mas agora, a minha dúvida é sobre a repercussão que tem tido o alto uso de Ritalina por estudantes ou profissionais que querem aumentar a concentração e a memória para obterem êxito nos exames vestibulares, concursos públicos, etc. Eu já fiz uso do medicamento durante um tempo, sei dos potenciais efeitos colaterais que o medicamento pode causar. Em mim, quando comecei a tomar, tomava 2 comprimidos/dia e a ansiedade aumentou, consideravelmente, e o meu humor ficou desestabilizado, ficando irritado e deprimido. Não tenho DDA ou TDAH, pois sempre tirei boas notas durante minha infância. Hoje tenho 22 anos, estou no último ano do curso de Direito, enfrentei uma dificil Depressão nos anos iniciais, minhas notas caíram, me senti a pessoa mais derrotada do Planeta, não conseguia me concetrar em nada, tomei Sertralina e, mesmo assim, minhas notas não melhoraram. Sei que muito de meu fracasso se deve a questões outras que não neuropsiquiátricas, tais como, falta de foco no que deve ser focado, problemas na metodologia na hora de estudar, sentimento de frustração e impotência, pois me deparei inúmeras vezes com o fracasso na minha vida acadêmica, baixa auto-estima ao fazer comparações com pessoas de cognição mais ágil que a minha, devido a alta competitividade que existe no meio acadêmico. Mas, senti mais confiança quando passei a tomar uma dosagem menor de Ritalina, me senti mais concentrado e li as novas descobertas sobre ela feitas pelos brilhantes neurocientistas da PUC/RS, estudiosos da Memória, os argentinos Iván Izquierdo e Martín Camarota. Eu li uma entrevista do Iván Izquierdo no site da famigerada neurocientista carioca, Suzana Herculano Houzel, afirmando que de fato, a Ritalina otimiza a memória no tocante à persistência desta.
Eu gostaria de saber o que o senhor pensa sobre tudo isso:
1) se é um dano grave ao cérebro utilizar este medicamento, mesmo sabendo do benefício que ele pode trazer?
2) se basta saber administrar a dosagem para que eu sinta menos efeitos colaterais?
3) se o benefício que ele traz é irrisório, assim como um copo de café, que poderia fazer o mesmo efeito??

Agradeço, desde já, a sua atenção.

Um abraço.

Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira disse...

O metilfenidato (Ritalina) vai sempre melhorar a memória e a atenção. Isso acontece até com os camundongos de laboratório! A questão é se a Ritalina trará efeitos colaterais ou interferirá negativamente com seu transtorno. Conheço pacientes para quem a Ritalina foi devastadora e outros que foi uma divisora de águas, melhorando muito a cognição e a qualidade de vida. Portanto, o caminho é procurar um psiquiatra e só fazer uso da medicação após uma avaliação e com a prescrição médica. Acho que o uso como os americanos costumam chamar - cognitive enhancers - somente para provas ou estudos é um risco, pois as pessoas que utilizam a medicação desta forma, nunca passam por uma avaliação cuidadosa e podem estar cavando a sua própria cova. Um abraço!

Anônimo disse...

dr leonardo por favor me responda uma pergunta porque meu filho nao responde ao antpsicoticos atipicos aguardo a resposta meu email e mariaruteal@hotmail.com muito obrigada abraçaos

Anônimo disse...

Bom dia Dr Leonardo,

Estive lendo seus artigos, é o que mais me chamou atenção foi o sobre a memória. Minha mãe tem uma vida ativa trabalha, tem 64 anos mas anda muito esquecida, gostaria de saber o que posso fazer para ajuda-la. Atividade fisica poderia ajuda-la?