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11 de fevereiro de 2010

A vulnerabilidade ao estresse: onde começa e onde termina a doença mental?



Por: Dr. Leonardo Palmeira

Pouco se sabe sobre a origem dos transtornos mentais, mas já é bem estabelecido que fatores genéticos e ambientais convergem para o adoecimento. A hereditariedade é um aspecto importante, já que muitos pacientes apresentam um histórico familiar positivo para distúrbios mentais. Entretanto, é comum que os transtornos mentais na família sejam diferentes, por exemplo, um tem depressão, o outro tem Transtorno do Pânico e um terceiro é bipolar.

Estudos genéticos têm associado diversos genes a diferentes distúrbios mentais, mas têm encontrado genes comuns a mais de um transtorno. No caso da esquizofrenia e do transtorno Bipolar (TBH), onde se tem maior robustez científica, vários genes (disbindina, DISC I, COMT, neuroregulina, dentre outros) foram encontrados tanto em pacientes esquizofrênicos como bipolares.

Isto nos leva a um questionamento: seriam os genes específicos para o transtorno A ou B ou eles predisporiam a pessoa ao adoecimento qualquer que fosse a síndrome? E sendo esta segunda hipótese verdadeira, o que faria com que a pessoa desenvolvesse depressão e a outra esquizofrenia?

Isso poderia explicar também porque familiares com a mesma carga genética não adoecem, enquanto outros desenvolvem transtornos mentais graves. Ou seja, embora a genética seja importante, ela não é preponderante. Entram em jogo fatores ambientais, o temperamento e a personalidade da pessoa, que podem tanto protegê-la, como empurrá-la para uma síndrome.

É neste contexto que entra um conceito da década de 70, a vulnerabilidade da pessoa ao estresse, ou seja, sua incapacidade de resistir às pressões, traumas e desgostos da vida, aos quais todos estamos expostos. Naquela época já se dizia que o que poderia ser inato não era a doença mental, mas a vulnerabilidade pessoal de desencadeá-la. E que ter ou não a doença dependeria de inúmeras variáveis, como criação, temperamento, personalidade, posturas e hábitos de vida, traumas, etc.
Pelo conceito de vulnerabilidade, um dos princípios fundamentais para a saúde de um organismo, é manter sua homeostase, seu equilíbrio fisiológico. Se estamos com sede ou precisamos saciar nossa fome, é porque nosso organismo detectou alguma ameaça à nossa homeostase e nos alertou a prontamente agirmos para seu reequilíbrio. As células do nosso corpo também agem sob este princípio. Este seria uma espécie de pulsão vital.

Quando algo de estressante ou desagradável nos ocorre, também agimos para buscar um alívio e restabelecer as condições de felicidade. Experimentamos, nestes momentos, mesmo que seja por um breve período, uma sensação de angústia ou aflição, perdemos algumas noites de sono, ficamos sem apetite, mas logo nos recuperamos e estabelecemos o status quor.

Nessa hora entram em cena o que psiquiatras chamam de disposição e capacidade de enfrentamento. São ferramentas que utilizamos para resolver assertivamente os problemas da vida. O que ocorre em pessoas vulneráveis, é que a disposição e sua capacidade para solucionar seus problemas não são suficientes para recuperar a homeostase, seja porque o trauma ou o infortúnio da vida é muito grande, difícil de transpor, seja porque sua disposição e capacidade de enfrentamento não estão adequadas. O sofrimento psíquico, então, se prolonga e ganha contornos dramáticos, uma vez que a pessoa não vê saída.

A genética pode explicar, em parte, porque alguns são mais vulneráveis, porque uns surtam diante de um problema e outros apenas se abalam, mas conseguem se reequilibrar. Mas certamente que a genética não atua isoladamente. As influências do temperamento (também inato) e da personalidade (adquirida através da criação, das experiências emocionais no início da vida) são de suma importância. Algumas pessoas têm verdadeiro tropismo para problemas, envolvem-se em relacionamentos conturbados, têm condutas de risco, expõem-se a drogas, enfim, criam consciente ou inconscientemente uma atmosfera propícia para o estresse e se colocam em risco o tempo todo para o adoecimento psíquico. É como se colocassem em cheque toda a sua capacidade de enfrentamento, mas se esquecem que o estresse crônico mina sua própria resistência.

O tratamento psiquiátrico, através de medicamentos, procura aliviar os sintomas para aguçar a percepção e permitir que a pessoa possa recuperar suas habilidades de enfrentamento para lidar com a situação adversa. Muitos quadros psiquiátricos vêm acompanhados de alterações cognitivas, como da atenção e da memória, que dificultam à pessoa planejar sua vida e tomar decisões acertadas para reestruturá-la. Neste sentido, a manutenção dos sintomas aprisiona a pessoa em seu marasmo atual, impedindo que ela evolua e saia do quadro.

A psicoterapia é outro ponto fundamental. Medicações podem atuar a curto prazo e devolver à pessoa alguma estabilidade, mas é através da psicoterapia, compreendendo seus pontos fracos e trabalhando para aperfeiçoar suas habilidades de enfrentamento, que a pessoa reunirá condições psicológicas para um dia interromper os medicamentos e seguir sua vida.

Mas as medicações podem ser essenciais para que a psicoterapia de fato aconteça. É comum que num quadro agudo a pessoa circule em círculo, sem conseguir perceber e elaborar suas questões, impedindo, assim, a progressão do tratamento. Por isso o tratamento aliado (medicação e psicoterapia) é comprovadamente mais eficaz do que os tratamentos isolados.

Um aspecto que considero fundamental na recuperação de longo prazo é a mudança de hábitos, comportamentos e atitudes diante das situações de vida, como trabalho, relacionamento, família. Muitos pacientes perceberão, através do tratamento, erros que podem predispô-los a um novo episódio e imprimirão mudanças em seus comportamentos para evitar a repetição.

A maior parte das recaídas ocorrem por fatores sociais ou biológicos que se repetem ao longo dos anos. No caso dos fatores biológicos, a identificação é importante para determinar se aquela pessoa precisa de um tratamento preventivo, inclusive através de medicamentos. É o caso das depressões sazonais, em que a pessoa desenvolve um episódio depressivo sempre no inverno e isso independe de outros fatores sociais. É o caso de algumas apresentações de transtornos cíclicos, como o transtorno bipolar e a esquizofrenia, em que a pessoa, p.ex, tem um episódio uma ou duas vezes por ano. Quando se percebe um padrão de recorrência claro, talvez seja negócio tratar continuamente a fim de se evitar a próxima recaída.

Mas grande parte dos quadros psiquiátricos não apresenta um padrão claro de recorrência (embora possa ser recorrente) que sugira um gatilho biológico para uma nova crise. Eles recorrem muitas vezes por repetição ou manutenção de fatores psicossociais geradores de estresse. A esquizofrenia, doença mental mais consolidada pelas pesquisas científicas, sofre fortes influências do meio em que a pessoa vive. Tem sido comprovado que o estresse proveniente da convivência familiar pode determinar se um paciente terá mais ou menos crises psicóticas. Esquizofrênicos com famílias compreensivas e colaborativas com o tratamento e a reabilitação tem até 70% menos recaídas e hospitalizações do que aqueles que possuem famílias críticas ou hostis. O mesmo pode ser aplicado a pacientes com outros transtornos, como TBH, TOC, Borderline, entre outros.

Então, um dos enfoques do tratamento é mudar os fatores do ambiente sócio-familiar que estão interferindo no processo de adoecimento. Ambientes como trabalho, círculos sociais, amizades prejudiciais seguem o mesmo raciocínio. Sempre que houver uma sobrecarga emocional ou estresse, pode ocorrer um desequilíbrio da homeostase, aumentando a vulnerabilidade da pessoa a um novo episódio da doença.

E porque muitas pessoas tomam remédios a vida toda? Primeiro é preciso separar aquelas que precisarão da medicação por apresentarem doença mais grave, crônica ou recorrente, sendo a medicação um fator preventivo de suma importância. Mas mudar comportamentos, hábitos, estilos de vida não é simples e muitos relutam e, por isso, agarram-se às medicações. É como emagrecer. A maioria quer tratamentos de resultados rápidos, como medicamentos, cirurgias, em detrimento de dietas demoradas e atividades físicas. Porém, qual resultado durará mais tempo? Emagrecimentos rápidos estão relacionados a ganho posterior de peso, enquanto àqueles com mudança real dos hábitos alimentares e do estilo de vida mantém-se magros para a vida toda. Vinte anos após o surgimento da cirurgia bariátrica (para redução de peso) já assistimos a pacientes operados que recuperaram seu peso antes da cirurgia.

Em suma, a transformação pessoal para uma vida mais feliz e sem episódios psiquiátricos precisa partir de dentro para fora, com a ajuda de medicamentos e psicoterapia, mas não pode se furtar de mudar o meio em que a pessoa vive. A cura está na capacidade de reduzir a sua vulnerabilidade e de aumentar sua capacidade de enfrentamento às situações da vida.

Para entender mais sobre a biologia dos transtornos mentais CLIQUE AQUI

12 comentários:

Anônimo disse...

Dr.Leonardo,

Quando comecei a fazer tratamento para esquizofrenia meu médico disse que eu iria tomar medicamento por apenas 5 anos. Sendo assim , fiquei contando os anos, na esperança que um dia poderia ficar sem tomá-los. Apesar de todas as terapias psicológicas que fiz , nenhuma fez o milagre suficiente para que eu parasse de tomar os remédios. Cheguei a conclusão que cada caso é um caso, para esquizofrenia infelizmente não há cura, e como diz o meu psicólogo terapia não entra em choque com outros tratamentos, ou melhor com o medicamento.

BIPOLARBRASIL disse...

Dr. Leonardo, parabéns pelo post como sempre. Objetivo e numa linguagem clara e feito para pessoas como eu, que não conhecem os termos técnicos etc. Eu hei de concordar com o texto e ressaltar que "infelizmente" nem sempre é possível mudar o "meio" em que o doente mental está inserido... Isto é, nem sempre é possível mudar o "ambiente familiar" hostil etc... O que poderíamos fazer para reverter esse quadro? Eu fico pensando nas famílias disfucionais que existem por aí... É triste. Um aspecto muito bacana no texto, foi ter abordado sobre "resistência" ao estresse. Eu tenho estudado a respeito e tem sido muito exclarecedor. Infelizmente os casos de doenças mentais têm aumentado, justamente pela "pressão" social de nosso tempo. A OMS já fala em números de deprimidos para 2020... É alarmante. Isso mostra que o fator genético não é o único responsável. Fica envidenciado, quando notamos mudanças ambientais significativas. Embora, eu ainda (na humilde opinião) acredite que a maior parte da ocorrência de sintomas de doença mentais, tem haver com a parte genética. Ainda que dois individuos possuam carga genética semelhantes, deve haver algo "diferente", alguma componente químico "até oculto" rss. Abs e sucesso! Will

Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira disse...

Willian,

realmente o cenário para 2020, 2050, etc é desalentador!! Com o aumento do estresse, mais pessoas vulneráveis vão adoecer e veremos um aumento da prevalência de todos os transtornos mentais, como as depressões, transtornos ansiosos e, principalmente, as reações ao estresse, como o transtorno de estresse pós-traumático. A globalização, a tecnologia, o excesso de informações traz muitas vantagens, mas com elas vem inevitavelmente o estresse por superestimulação e aumento das cobranças e pressões. Quem não souber "filtrar" aquilo em que deve ou não se envolver, sairá em desvantagem. O problema é que tudo isso vai sendo incorporado à nossa cultura para as futuras gerações. Teremos que rever tudo, desde a educação em casa e na escola, profissionalização, etc, se quisermos proteger nossos filhos e netos para uma vida que exigirá naturalmente mais deles no futuro. O problema é que não vejo esta preocupação em pauta, como sempre pensamos mais no remédio do que na prevenção. É pena! Um abraço!

Anônimo disse...

Se a única causa para doença mental estivesse no ambiente familiar ou no meio ambiente já teríamos encontrado a cura da doença, apesar das inúmeras pesquisas na tentativa de encontrar as causas da doença nenhuma teoria foi capaz de demonstrar com exatidão o que provoca. Respondendo a questão que o Will coloca, sem dúvida a teoria que mais se aproxima da causa da esquizofrenia é a genética, por isso alguns indivíduos manifestam a doença e outras vivendo na mesma condição não adoecem.Mas felizmente com os avanços dos antipsicóticos vivemos normalmente, ou até melhor que os "normais".

Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira disse...

Esta dicotomia genética x ambiente é equivocada. Muitos pensam que a genética é algo definitivo, que não há nada a ser feito: "se a pessoa tem o gene, pronto, ela adoecerá mais cedo ou mais tarde". Mesmo na esquizofrenia isto não acontece. Os genes precisam ser "ativados" por fatores do ambiente, caso contrário os genes que predipõem a pessoa à doença não se manifestarão. Isto se chama plasticidade genética. Uma pessoa que possui um polimorfismo do gene da enzima COMT, p.ex., que predispõe à esquizofrenia, ao usar maconha no início da adolescência, ativa o gene, que provoca uma cascata de eventos que culminam no adoecimento. Mas se ela não usar maconha, esse gene não se expressa e o processo de adoecimento não acontece. Estou citando apenas um exemplo, já que a esquizofrenia possui diversos genes relacionados à sua origem. Por isso é que os genes compõem apenas a metade do risco de adoecimento.

Anônimo disse...

Dr.Leonardo,

Uma vez consultando um famoso médico ortomolecular especializado em tratamento para autismo e esquizofrenia ele me disse que quando a esquizofrenia se manifesta o processo que ocorre no cérebro de uma pessoa que tem um surto é semelhante ao que acontece num cérebro de um viciado em heroína ou drogas alucinógenas. Poderia me esclarecer se os processos são semelhantes, ou isto é apenas uma suposição sem provas concretas?

Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira disse...

Não é bem assim. Do ponto de vista químico essas drogas aumentam a quantidade de dopamina (o que também ocorre na esquizofrenia), causando alucinações e delírios. Porém, o aumento de dopamina é muito superior ao que vemos na esquizofrenia, além do que essas drogas podem provocar lesões cerebrais, como isquemias, morte neuronal, atrofias, etc., o que não ocorre na esquizofrenia por não haver um insulto desta magnitude. Um abraço!

Anônimo disse...

Boa tarde doutor, me chamo Adriano, estava pesquisando na internet até cair no seu blog.... e estava lendo a respeito.. gostei muito do que li.... mas gostaria de fazer uma pergunta.... eu tenho um problema de que quando estou com outras pessoas conversando eu pisco muito, mas muito mesmo... é tanto que no fim do dia, estou com dor nos olhos, e noto também que sozinho de vez enquando tenho que fechar os olhos como se fosse piscar... mas tento resistir e não consigo, meus amigos até tiram sarro me imitando pois é muito feio... esses dias foi o meu noivado e vi a filmagem... meu deus como é feio isso de ficar piscando,colocando a mão no rosto... o que pode ser isso já tentei de tudo, oculista, neuro.... renkei(renquei) e nao adiantou nada..... uma coisa eu posso afirmar.. eu não tinha isso..... e de uns anos para cá, com o neuro eu estou tomando a medicação orap 1mg, mas sinto que não está me ajudando em nada....

gostaria de uma resposta pelo menos

Anônimo disse...

Dr. Leonardo sou portadora de transtorno bipolar, li em algum lugar que quem faz uso de carbamazepina pode ter crises de esquizofrenia, então é possível essa patologia progredir para uma esquizofrênia, já que eu tomo o carbamazepina ?

Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira disse...

Adriano,

seu relato é sugestivo de Transtorno de Tiques. Tiques são atos motores involuntários, piscar os olhos, fazer caretas, fungar são os mais comuns. O tratamento envolve medicações como a que citou, mas os resultados variam muito e depende também da dose da medicação. Sugiro que converse melhor com seu neurologista. Um abraço!

Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira disse...

Não sei onde leu isso, mas esta informação é absurda! Carbamazepina é um anticonvulsivante que tem propriedades estabilizadoras de humor, não tem nada a ver com esquizofrenia, muito menos o TBH pode evoluir para a esquizofrenia. São diagnósticos excludentes, ou se tem bipolaridade ou esquizofrenia. Um abraço!

geanne disse...

meu marido e bipolar descobrimos em 2007 e estava tomando carbolitium e zargus, agora o doutor mudou pois o litiu dele nunca aumentou e 0,40agora toma torval cr300mg,dieloft e zargus o senhor acha que esta correto esta medicaçao.obrigada geanne Arapiraca-Al,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,